
Descubra por que a compatibilidade genética (HLA) é mais importante que o sistema ABO (classificação do sangue) e como funciona o cadastro de doadores.
O transplante de medula óssea é um tratamento curativo fundamental para diversas doenças graves do sangue. É uma terapia celular complexa que exige uma compatibilidade muito específica entre doador e paciente para que o procedimento seja bem-sucedido.
Uma dúvida comum que impede muitas pessoas de se tornarem doadoras é se é preciso ter o mesmo tipo sanguíneo do receptor. A boa notícia é que não, você não precisa ter o mesmo tipo sanguíneo.
A lógica da compatibilidade para o transplante de medula óssea é diferente da transfusão de sangue. Enquanto na transfusão o sistema ABO/Rh é fundamental, na doação de medula o que realmente importa é a semelhança genética entre doador e paciente. Para que a doação seja bem-sucedida, a compatibilidade é determinada pela genética, e não pelo tipo sanguíneo, prevenindo que as células doadas ataquem o corpo do receptor.
Por que o tipo sanguíneo não é o principal fator na doação de medula óssea?
A confusão entre os sistemas de compatibilidade é compreensível. Para transfusões de sangue, a presença de certos antígenos na superfície das hemácias (glóbulos vermelhos) define se o sangue é do tipo A, B, AB ou O. Se houver incompatibilidade, o sistema imune do receptor ataca as células doadas, causando uma reação grave.
No entanto, o transplante de medula óssea envolve a doação de células-tronco hematopoiéticas. Essas células são as "fábricas" de todo o sangue. A compatibilidade delas é definida por outro sistema, muito mais complexo e específico, chamado sistema HLA. A compatibilidade da medula óssea é determinada pelo sistema genético HLA, sendo este o principal critério para selecionar doadores em transplantes.
O que é o sistema HLA e por que ele é tão importante?
O HLA (Antígenos Leucocitários Humanos) é um conjunto de proteínas encontrado na superfície de quase todas as células do corpo, funcionando como um "código de barras" genético. O sistema imunológico usa esse código para diferenciar as células do próprio organismo das de um invasor, como vírus e bactérias.
Para que o transplante seja bem-sucedido e o corpo do receptor não rejeite a nova medula, é preciso que os códigos HLA do doador e do paciente sejam o mais idênticos possível. A chance de encontrar um doador com HLA compatível na população geral é, em média, de 1 em 100 mil, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), que coordena o Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (REDOME).
O que acontece se os tipos sanguíneos forem diferentes?
Quando um transplante de medula óssea é realizado entre pessoas com tipos sanguíneos diferentes, algo extraordinário acontece. Como as células-tronco do doador substituem as do receptor, o paciente passa a produzir células sanguíneas com as características do doador. Na prática, o tipo sanguíneo do receptor muda para o tipo do doador após o transplante.
Como é determinada a compatibilidade da medula óssea?
O processo para verificar a compatibilidade é mais simples do que parece. Ele começa com a busca por um doador compatível no banco de dados do REDOME.
A primeira etapa é a análise genética do paciente para identificar seu perfil HLA. Em seguida, esse perfil é comparado com os perfis de todos os doadores cadastrados no registro. Quando um possível doador é encontrado, ele é contatado para realizar novos testes de sangue que confirmam a compatibilidade com um alto grau de certeza.
A maior probabilidade de compatibilidade está entre irmãos (cerca de 25%). Para a maioria dos pacientes, porém, a única esperança é encontrar um doador não aparentado no registro nacional.
Quem pode se tornar um doador de medula óssea?
Estar disposto a ajudar é o primeiro passo. Existem alguns critérios básicos definidos pelo Ministério da Saúde para garantir a segurança tanto do doador quanto do receptor.
Requisitos básicos para o cadastro
- Ter entre 18 e 35 anos de idade.
- Estar em bom estado geral de saúde.
- Não ter doenças infecciosas transmissíveis pelo sangue (como HIV e hepatites).
- Não possuir histórico de câncer, doenças hematológicas ou autoimunes (como lúpus e artrite reumatoide).
É importante destacar que, uma vez cadastrado, o doador permanece no REDOME até os 60 anos, podendo ser convocado a qualquer momento se for compatível com algum paciente.
Como funciona o processo de doação na prática?
Se você atende aos requisitos, o caminho para se tornar um potencial salvador de vidas é simples.
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Cadastro: procure o hemocentro mais próximo de sua cidade. Lá, você preencherá uma ficha com seus dados e será coletada uma pequena amostra de sangue (apenas 5 ml) para o teste de tipagem HLA.
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A espera: seus dados genéticos são inseridos no REDOME. Você só será contatado se houver um paciente compatível. Por isso, é fundamental manter seus dados de contato sempre atualizados.
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A doação: caso seja compatível, você será chamado para confirmar o interesse e realizar exames de saúde. Existem duas formas de doação, e a escolha depende da necessidade do paciente e da avaliação médica:
- Aférese: método mais comum, onde o doador toma um medicamento por alguns dias para estimular a produção de células-tronco, que passam da medula para o sangue. A coleta é feita por uma máquina que filtra o sangue, retira as células-tronco e devolve o restante ao corpo.
- Punção direta: procedimento feito em centro cirúrgico, sob anestesia. As células-tronco são retiradas do interior dos ossos da bacia com uma agulha. O doador geralmente recebe alta no dia seguinte.
Em ambos os casos, a medula óssea do doador se regenera completamente em poucas semanas. O gesto de solidariedade não traz prejuízos à saúde e oferece uma nova chance de vida a quem luta contra doenças graves como leucemias e linfomas.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica. Em caso de dúvidas, procure um especialista habilitado.
Bibliografia
INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER (INCA). Doadores – Registro Brasileiro de Doadores Voluntários de Medula Óssea (REDOME). Rio de Janeiro: INCA, [s. d.]. Disponível em: https://redome.inca.gov.br/doadores/. Acesso em: 10 abr. 2026.
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AL-HUSSEIN, Khalid et al. CÂNCER DE MEDULA ÓSSEA: PERFIL-CLÍNICO EPIDEMIOLÓGICO NO BRASIL ENTRE 2009 E 2019,Hematology, Transfusion and Cell Therapy, Volume 43, Supplement 1, 2021, Pages S499-S500. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2531137921010075. Acesso em: 10 abr. 2026.
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