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Notícias

Revista Diagnóstico - Entrevista com Dr. Fernando Junior

Entrevista de Dr. Fernando Júnior com a  Revista Diagnóstico - out/nov/dez 2009

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“O mercado mudou”

O empresário e investidor Fernando Rodrigues Júnior, 41 anos, se tornou nos últimos anos uma das figuras mais comentadas do setor médico-hospitalar do País. Tudo por conta de um projeto audaz, que pretendia criar a maior rede de hospitais do Brasil, com 15 unidades espalhadas de Norte a Sul e investimentos de mais de R$ 1 bilhão em  recursos de grandes investidores. Veio a crise internacional e o projeto teve que ser revisto. Da projeção inicial, apenas três unidades foram à frente: os hospitais Alfa, de Pernambuco e do Rio de Janeiro, este último vendido ao grupo Medial, e o Hospital da Bahia, em Salvador. “Outros players passaram a atuar no mercado mais fortemente. A crise afugentou os investidores e o mercado mudou”, simplifica o investidor em um tom típico de quem já se acostumou a lidar com a gangorra do mercado financeiro. Criado dentro dos negócios da família, que atua em setores que vão da pecuária à incorporação imobiliária – o de maior visibilidade –, Rodrigues fala do negócio de hospitais com rara transparência. Assume parte da parcela de culpa pela falta de êxito do projeto e admite: “Pensaria duas vezes em fazer um hospital do zero, buscando todos os credenciamentos, como o investimento que fizemos aqui (cerca de R$ 150 milhões, segundo fontes do mercado)”. À frente da Rede Alfa, ele acaba de implantar um novo modelo de gestão para os hospitais, que incorpora sócios ao projeto, como um condomínio voltado para prestação de serviços de saúde de alto nível. E comenta, no mesmo tom de voz com que fala dos filhos Fernando, 10 anos, Eduardo, 8, e Maria Antonia, 5. “Quando foram construídos (os hospitais da Bahia e de Pernambuco), diziam que não seriam equipados. Quando foram equipados, que não iam abrir. Depois que abriram, que não iam ter convênio. Mais de quinhentas mil pessoas já compraram e já venderam a Rede Alfa”, exagera o empresário, com o humor típico de quem parece esconder uma carta na manga. Será?

Revista Diagnóstico – Há dois anos, o senhor deu uma entrevista ao grupo IT Mídia em que dizia que o mercado de saúde estava em alta. O que mudou de lá para cá?

Fernando Rodrigues Júnior – A crise financeira mundial, em setembro do ano passado. O mercado inteiro sentiu e o setor de saúde não ficou imune. Houve demissões na indústria, no comércio, o que repercutiu entre as operadoras. Já há uma recuperação evidente no mercado, é bom que se diga, mas de forma bastante gradual e lenta.

Diagnóstico – Foi essa mesma crise que impediu a venda de participação no Hospital da Bahia ao grupo D’Or, em outubro do ano passado?

Rodrigues Júnior – Sim. Já estávamos com um pré-contrato definido e due diligence (auditoria interna) concluída. Três executivos do grupo ficaram durante 30 dias em Salvador avaliando toda a parte operacional do hospital. O presidente do grupo, Jorge Moll, chegou a vir à Bahia para anunciar ao meio médico a concretização da negociação. Uma semana depois, aconteceu a crise. O mercado financeiro recuou e ele também. Mesmo assim, continuamos a dar sequência ao projeto.

 Diagnóstico – O que deu errado na ideia original da Rede Alfa, que previa a construção de 15 hospitais em todo o Brasil, entrada na bolsa e captação de investimentos estrangeiros?

Rodrigues Júnior – Esse projeto nasceu em 1997, com a criação de uma rede de hospitais estruturada e administração centralizada com sede na cidade do Rio de Janeiro. A proposta era montar um grande business prevendo a abertura de capital na Bolsa. Um investimento que ainda não existia no Brasil até então. Barreiras legais que impedem o capital estrangeiro de entrar no mercado, informalidade e falta de governança corporativa na área hospitalar foram alguns dos fatores que acabaram dificultando a captação de fundos de investimentos. Além disso, o mercado mudou, outros players passaram a atuar com mais velocidade, precisamente no Sudeste e depois em Recife. Tivemos uma grande oportunidade no Rio de Janeiro e vendemos a operação carioca para a Amil. Será um hospital de alto padrão, o maior do estado, com 400 leitos e que continua sendo construído pela Fator (braço de incorporação do grupo). Mudamos nossa estratégia, partimos para consolidar os dois projetos (Hospital da Bahia, em Salvador, e Hospital Alfa, em Pernambuco). 

Diagnóstico – O que mudou na gestão das duas operações?

Rodrigues Júnior – De seis meses para cá, montamos um projeto de Sociedade em Cota de Participação. Uma estrutura de condomínio, com gestão centralizada, aval tributário e uma sinergia operacional que visa fortalecer permanentemente a imagem da instituição perante o mercado. Foram meses de estudos e muitas reuniões com empresas de consultoria na formatação de um modelo ainda inédito no Brasil. Outro grande desafio foi a escolha dos sócios para cada uma das áreas produtivas. Buscamos parceiros de diversas regiões do País, com boa estrutura de capital e expertise em suas áreas de atuação. Fechamos o projeto do Hospital da Bahia, com todas as unidades compostas por sócios parceiros, a exemplo da Bioimagem, com a Biosolution; hemodinâmica (Biocor); IVA – Instituto Vascular, que tem como âncora a participação de um renomado médico belga; centro cirúrgico (ACC); UTI e Emergência (Intensicare). Soube recentemente que já existe, inclusive, uma percepção no mercado de que esse modelo possibilitará a alavancagem de outros hospitais.

Diagnóstico – Recife já implantou o modelo?

Rodrigues Júnior – Não é fácil mudar paradigmas, embora gostemos de ser sempre pioneiros no que fazemos. Preferi concentrar a atenção na Bahia até que todos os ajustes sejam feitos. Foi o primeiro passo para que pudéssemos replicar esse modelo na unidade pernambucana da Rede, cuja reestruturação foi deflagrada no início de novembro. Fechamos com o primeiro grupo para o setor de hemodinâmica. Depois virão laboratório, bioimagem, entre outros.

Diagnóstico – A operação da Rede Alfa é lucrativa?

Rodrigues Júnior –  Do ponto de vista do tíquete médio, sim. Temos ainda um problema de demanda, o que prejudica o percentual de ocupação dos hospitais versus o custo fixo operacional. Desta forma, ainda não atingimos um EBITDA positivo. Na capital pernambucana, o Hospital Alfa teve que se adaptar à realidade de preços praticados pelos planos de saúde locais e consequente ajuste da estrutura com a finalidade de compatibilizá-la com as peculiaridades do mercado.

Diagnóstico – O momento mais difícil já passou?

Rodrigues Júnior – Acredito que sim. Os primeiros três anos após a inauguração foram desafiadores. Sofremos nas negociações com os planos de saúde    um “jogo” terrível para um estreante de mercado. Minha vinda para cá (transferiu residência do Rio para Salvador) se deu justamente pela necessidade de estar mais perto do dia a dia da operação. Mas vamos entrar em 2010 com o pé direito, numa situação bem mais confortável e segura.

Diagnóstico – A complexidade do setor de saúde de alguma forma lhe surpreendeu?

Rodrigues Júnior – De certa forma, sim. O mercado de saúde é muito volátil. O prestador depende diretamente da operadora, que tem a prerrogativa de glosar, criticar, não pagar ou atrasar. Além disso, os recebíveis contra os planos de saúde não têm liquidez. Não se pode também brigar com os planos, senão seu hospital é descredenciado e uma fatia de clientes simplesmente deixa de poder usufruir do seu negócio. Infelizmente são as regras de mercado. Há também o problema da concorrência desleal dos filantrópicos em relação aos hospitais que têm tributação convencional. Um percentual muito pequeno da estrutura destes hospitais é destinado ao atendimento dos pacientes conveniados ao SUS.  O restante é custeado pela Saúde Suplementar. Existem ainda questões relacionadas com fornecedores de OPME, sem falar das estruturas de apoio administrativo como cozinhas, call center, banco de sangue, laboratórios, etc. É um negócio bastante complexo.

Diagnóstico –  Isso dificulta a entrada do investidor.

Rodrigues Júnior – Com certeza. Eu pensaria duas ou mais vezes em fazer um hospital do zero com os investimentos que fizemos aqui (cerca de R$ 150 milhões, segundo fontes do mercado). Depois de abrir, tivemos que buscar todos os credenciamentos com as operadoras de planos de saúde. É muito difícil entrar num negócio com esta dependência. Quando os planos percebem que o prestador está ficando sufocado, sem pacientes e bancando um custo fixo elevadíssimo, é justamente o momento do aperto nas negociações comerciais. E para reverter esta situação levam-se alguns anos, o que acaba retardando o retorno dos investimentos. Isso tudo pesa para que o investidor entre em um mercado novo.

Diagnóstico – À Rede Alfa só resta então crescer através de aquisições?

Rodrigues Júnior – Como estratégia de negócio, diria que sim. Nossa intenção é crescer nos mercados de Salvador e Recife, com aquisições de unidades de diferentes complexidades, buscando um posicionamento de mercado bem definido. Fizemos algumas alterações societárias que possibilitarão a captação de novos investimentos. A construção de novas unidades está descartada no momento.

Diagnóstico – Muitos críticos de mercado dizem que faltou expertise do grupo para entrar no mercado de saúde...

Rodrigues Júnior – Acredito que não, até porque já fomos donos de hospital antes mesmo da criação da Rede Alfa. O que faltou foi a consolidação de capital referente à estratégia na montagem do projeto inicial. Ele foi planejado para que um fundo de investimento assumisse a parte da montagem. Como isso não aconteceu, tivemos que financiar dois hospitais que nasceram praticamente juntos, com recursos próprios. Foi muito difícil.

Diagnóstico – Como foi a primeira experiência do grupo na área médica?

Rodrigues Júnior – Foi no início da década de 70, com o Hospital João XXIII, na cidade do Recife. Financiamos a construção para um grupo local, que depois não pôde arcar com os custos da montagem do hospital. Assumimos o negócio, depois vendemos para o grupo Hapvida, do Ceará. Era um empreendimento que deixava uma margem EBITDA muito atraente. Foi nossa inspiração para voltar ao mercado, dessa vez de forma estruturada, planejada e com governança profissional, quase 18 anos depois.

Diagnóstico – Houve também muita especulação sobre o futuro da Rede Alfa. Isso lhe incomodou?

Rodrigues Júnior – Nunca gostei de rebater qualquer tipo de crítica contra nossos negócios. Sempre trabalhei calado, fazendo mais do que aparecendo. Escutei muitas críticas ao projeto. Mesmo antes de nascer, diziam que os hospitais não seriam construídos. Quando foram construídos, que não seriam equipados. Quando foram equipados, que não iriam abrir. Depois que abriram, que não haveria convênios. Mais de quinhentas mil pessoas já compraram e já venderam a Rede Alfa. Faz parte.

Diagnóstico – Qual a previsão para retorno do investimento?

Rodrigues Júnior – A conta que eu faço são dez anos, desde a inauguração (2007). Um número real, principalmente após nosso novo reposicionamento no mercado. Sobre esse aspecto, bem verdade, os números costumam ser bastante divergentes. Várias empresas de consultoria já fizeram estudos com base na realidade atual da Rede, sem consenso. Se eu fosse me basear nestas informações, ou estaria com as mãos na cabeça, preocupado, ou gastando por conta. Prefiro ter um prognóstico conservador.

Diagnóstico – O mercado vai continuar sendo de futuro?

Rodrigues Júnior – É muito interessante perceber que há poucos anos não existiam redes consolidadas de hospitais no Brasil. De repente, começam a surgir negócios no segmento de saúde e alguns grupos montando estruturas para atrair capital externo, usando algumas brechas na legislação. Assistimos neste último ano à abertura de capital na Bolsa de operadoras de planos de saúde, além de aquisições, fusões e consolidações de empresas neste setor. Talvez possamos dizer que são sinais animadores para um mercado promissor e em franca expansão. Isso demonstra que há um interesse muito grande no mercado de capitais na área de saúde. Algo  positivo.

Diagnóstico – O senhor acredita que há interesse político em acabar com a restrição ao capital externo no mercado de saúde do Brasil ?

Rodrigues Júnior – Existem alguns movimentos, em nível de Congresso, para mudar essa regra, apesar de haver brechas na legislação que, na prática, torna isso possível. Mas nada que deixe o investidor muito confortável. Se quebrássemos esse tabu, acho que todos sairiam ganhando, inclusive o governo.

Diagnóstico – Apesar da recomposição do negócio, a Rede está aberta a outras possibilidades?

Rodrigues Júnior – Depois de todas estas mudanças com a implantação do atual modelo societário, ficaria bem mais difícil abrir possibilidades de negócios diretamente nas operações, mas somos empresários e empreendedores. Estou sempre estudando e discutindo propostas. Têm aparecido vários grupos interessados nos hospitais, mas nada que tenha sido atrativo. No momento, meu foco é consolidar nossas operações.

Download da Entrevista - Revista_Diagnostico_Dr_Fernando_Junior.pdf

Fonte: INDEP
Av. Prof. Magalhães Neto, 1541, Pituba, CEP: 41820-011, Salvador/BA. Telefone: (71) 2109-1000
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