O elemento chave para o tratamento do AVC é o tempo

“O tempo entre os primeiros sintomas e o início do tratamento do AVC são determinantes na recuperação dos pacientes, explica Dr. Marco Heleno, Coordenador do Centro de Neuro – Intervenção do Hospital da Bahia”

P – Qual a diferença entre o Acidente Vascular Cerebral (AVC) isquêmico agudo e o hemorrágico?

R – O AVC, ou AVE – Acidente Vascular Encefálico, popularmente conhecido como “derrame” é a principal causa de morte e de incapacidade no mundo. Eles podem ser de dois tipos:
O isquêmico – aquele o qual um vaso nutridor do cérebro é ocluído por trombo (coágulo sanguíneo) ou por placa de arteriosclerose, resultando na falta de circulação sanguínea (isquemia) em determinada parte do cérebro que pode sofrer até a morte celular ou infarto.
Tipo hemorrágico – ocorre o rompimento de um vaso cerebral, resultando em sangramento interno no cérebro (hemorragia). Pode ocorrer por ruptura de aneurisma cerebral ou de má formações arteriovenosas cerebrais (angiomas).
Os principais fatores de risco para ocorrência de AVC são: hipertensão arterial, diabetes mellitus, tabagismo, altas taxas de colesterol e triglicérides, uso de contraceptivos orais ou de outros hormônios, doenças cardíacas e sedentarismo. São grupo de risco também os pacientes com forte histórico familiar para doenças cérebro-cárdio-vasculares.

P – O que há de mais moderno no ramo da neurociência para tratar o AVC?

R – Atualmente existem vários recursos terapêuticos dentro da neurociência médica (Neurocirurgia, Neurologia Clínica, Neurorradiologia Intervencionista) que permitem o tratamento eficaz do AVC, tanto isquêmicos quanto hemorrágicos. O elemento chave para o tratamento bem sucedido é o “TEMPO”.

Um paciente vítima de AVC deve ser encaminhado o mais rapidamente possível a um serviço especializado e organizado para atendimento. Para pacientes com AVC isquêmico, dispomos apenas das seis primeiras horas para tentarmos revascularizar a zona de isquemia (obstrução do fluxo sanguíneo).

Contamos também com medicações trombolíticas que, administradas na dose correta, em tempo hábil, com a indicação correta do neurologista, são capazes de dissolver os trombos responsáveis pela obstrução do vaso.
Quando ocorre a falha da medicação trombolítica, dentro da Neurorradiologia Intervencionista, podemos realizar cateterismo dos vasos cerebrais e empregar utensílios endovasculares (cateteres, balões, stents, dispositivos de retirada de trombo) capazes de desobstruir mecanicamente o vaso entupido e restabelecer o fluxo sanguíneo.

Todavia, estes gestos só trazem benefício ao paciente se forem realizados dentro das primeiras seis horas e idealmente, dentro das primeiras quatro horas, sendo fundamental o rápido encaminhamento do paciente ao hospital que tenha serviço organizado para este tipo de atendimento, como ocorre no Hospital da Bahia.

Os pacientes com AVC hemorrágico podem se beneficiar de tratamento minimamente invasivo por cateterismo pelos recursos da Neurorradiologia Intervencionista. Dispomos de utensílios como os espirais de platina, stents autoexpansíveis, microcateteres e microbalões que nos permitem tratar aneurismas cerebrais, inclusive os recém rompidos, sem necessidade de abertura cirúrgica do crânio, tornando este tratamento menos agressivo e eventualmente de maior benefício para o paciente, minimizando sequelas e tempo de recuperação.

Neurocirurgia aberta é também um recurso importante na condução dos pacientes vítimas de AVC hemorrágico, inclusive associadamente aos tratamentos endovasculares.

P – Além dos aneurismas, quais as outras patologias vasculares que podem ser tratadas através da Neurorradiologia Intervencionista (NRI)? Quais as vantagens da técnica?

R – A Neurorradiologia Intervencionista é uma especialidade que utiliza recursos de sala de hemodinâmica, técnicas minimamente invasivas de cateterismo vascular do sistema nervoso que nos permitem tratar aneurismas cerebrais, má formações arteriovenosas (angiomas) cerebrais e de cabeça, pescoço e coluna, que nos permitem ainda desobstruir vasos ocluídos no AVC isquêmico agudo, desobstruir vasos parcialmente obstruídos por placas de arteriosclerose através de angioplastias com implante de stent em vasos intracranianos, carótidas e vertebrais (vasos cervicais).

Além disso, dispomos de recursos para tratamento pré-operatório de tumores de cabeça, pescoço e coluna, tratamento de sangramentos nasais (epistaxis) por embolização, entre outros.

P – Quais são as vantagens e diferenciais da neurointervenção endovascular para os procedimentos convencionais?

R – Existem várias vantagens nas técnicas de tratamento da Neurorradiologia Intervencionista. O fato de serem minimamente invasivas, dispensando abertura cirúrgica convencional que é uma delas, concorre para uma recuperação mais rápida e minimização de sequelas. Estas técnicas também permitem tratamento de patologias inabordáveis por cirurgias, seja pela natureza da doença (arteriosclerose de vasos intracranianos, por exemplo) ou pela localização inabordável cirurgicamente (aneurismas cavernosos, má-formações ou aneurismas em artéria basilar, má-formações em medula, tumores de localização profunda, entre outras).

Além disso, a Neurorradiologia Intervencionista pode tornar possível certas abordagens cirúrgicas, sobretudo, de tumores ou de outras doenças que, sem uma embolização prévia, seriam intratáveis pela cirurgia convencional.

P – Explique como é feito este procedimento!

R – Os procedimentos de Neurorradiologia Intervencionista são realizados na maioria das vezes por meio de uma punção com agulha em artéria ou veia na coxa direita, permitindo acesso ao sistema vascular do paciente. Uma vez estabelecido este acesso, navega-se pelo interior dos vasos com uso de cateteres e emprego de raios X em uma sala de angiografia, dirigindo-se sob visão com os raios X para qualquer região do corpo de interesse, à direita ou à esquerda.

Através dos cateteres e pelo uso de próteses, implantes, stents, dispositivos de aspiração, agentes emboligênicos (colas, resinas, partículas) atua-se na região doente, desobstruindo vasos normais ou obstruindo vasos e trechos vasculares doentes, com precisão milimétrica, minimizando danos e facilitando recuperação rápida.

Em algumas situações, realizam-se procedimentos por punção direta da estrutura ou órgão a ser tratado.
Os procedimentos são realizados em ambiente de sala de hemodinâmica com rigores de antissepsia similares ao de um centro cirúrgico, com emprego de alta tecnologia em imagem e materiais de cateterismo, além de recursos de anestesia local ou geral, conforme cada caso.

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